O MITO DAS CINCO RAÇAS

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O MITO DAS CINCO RAÇAS

Mensagem  Richard Wizard em Qui Set 06, 2012 2:17 am

Os Trabalhos e os Dias (em grego: Ἔργα καὶ Ἡμέραι, transl. Erga kaí Hemérai) também conhecido como As Obras e os Dias, é um poema épico de Hesíodo, um dos primeiros autores conhecidos da Grécia Antiga.
     
Especificamente, o autor relacionará alguns temas, que envolve a natureza do homem e o mundo, e alguns estágios da vida do homem, fazendo uma comparação, com alguns tipos de metais e seus valores. Isto enfatizando de uma forma primordial, a partir da raça de ouro, até chegar na raça de ferro que seria um último estágio da decadência humana. O mais curioso disso, é, que ao ler, lembraremos de momentos, de outras obras semelhantes, da nossa realidade, e de outros mitos. Enfim. A beleza de tudo isso, é comparar uma raça à outra, e veremos as suas diferenças, suas qualidades e suas fraquezas.
     
Raça de Ouro

Se queres, com outra estória esta encimarei; bem e sabiamente lança-a em teu peito!
[Como da mesma origem nasceram deuses e homens.]
Primeiro de ouro a raça dos homens mortais criaram os imortais, que mantêm olímpias moradas.
Eram do tempo de Cronos, quando no céu este reinava; como deuses viviam, tendo despreocupado coração,
apartados, longe de penas e misérias; nem temível velhice lhes pesava, sempre iguais nos pés e nas mãos,
alegravam-se em festins, os males todos afastados, morriam como por sono tomados; todos os bens eram para eles:
espontânea e terra matriz fruto trazia abundante e generoso e eles, contentes, tranquilos nutriam-se de seus pródigos bens.
Mas depois que a terra a esta raça cobriu eles são, por desígnios do poderoso Zeus, gênios corajosos, ctônicos, curadores dos homens mortais. [Eles então vigiam decisões e obras malsãs, vestidos de ar vagam onipresentes pela terra.]
E dão riquezas: foi este o seu privilégio real.

Raça de Prata

Então uma segunda raça bem inferior criaram, argêntea, os que detêm olímpia morada; à áurea, nem por talhe nem por espírito,
semelhante; mas por cem anos filho junto à mãe cuidadosa crescia, menino grande, em sua casa brincando, e quando cresciam
e atingiam o limiar da adolescência pouco tempo viviam padecendo horríveis dores por insensatez; pois louco Excesso não podiam
conter em si, nem aos imortais queriam servir nem sacrificar aos venturosos em sagradas aras, lei entre os homens segundo o costume. Então Zeus Cronida encolerizado os escondeu porque honra não davam aos ditosos deuses que o Olimpo detêm.
Depois também esta raça sob a terra ele ocultou e são chamados hipoctônicos, venturosos pelos mortais, segundos, mas ainda assim honra os acompanha.
Raça de Bronze

E Zeus Pai, terceira, outra raça de homens mortais, brônzea criou em nada se assemelhando à argêntea;
era do freixo, terrível e forte, e lhe importavam de Ares obras gementes e violências; nenhum trigo eles comiam e de aço tinham
resistente o coração; inacessíveis: grande sua força e braços invencíveis dos ombros nasciam sobre as robustas partes.
Deles, bronzêas as armas e brônzeas as casas, com bronze trabalhavam: negro ferro não havia. E por suas próprias mãos tendo sucumbido desceram ao úmido palácio do gélido Hades; anônimos; a morte, por assombrosos que fossem, pegou-os negra. Deixaram, do sol, a luz brilhante.
Raça dos Hérois

Mas depois também a esta raça a terra cobriu, denovo ainda outra, quarta, sobre fecunda terra Zeus Cronida fez mais justa e mais corajosa, raça divina de homens hérois e são chamados semideuses, geração anterior à nossa na terra sem fim.
A estes a guerra má e o grito temível da tribo a uns, na terra Cadméia, sob Tebas de Sete Portas, fizeram perecer pelos rebanhos de Édipo combatendo, e a outros, embarcados para além do grande mar abissal a Tróia levaram por cauda de Helena de belos cabelos, alí certamente remate de morte os envolveu todos e longe dos humanos dando-lhes sustento e morada Zeus Cronida Pai nos confins da terra os confinou. E são eles que habitam de coração tranquilo a Ilha dos Bem- Aventurados, junto ao oceano profundo, heróis afortunados, a quem doce fruto traz três vezes ao ano a terra nutriz.
Raça de Ferro

Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça, mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. Pois agora é a raça de ferro e nunca durante o dia cessarão de labutar e penar e nem à noite de se destruir, e árduas angústias dos deuses lhe darão. Entretanto a esses males bens estarão misturados. Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá, no momento em que nascerem com têmporas encanecidas. Nem pai a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a hospedeiro ou companheiro, e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido; vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam e vão censurá-los, com duras palavras insultando-os; cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder retribuir aos velhos pais os alimentos; [ com a lei nas mãos, um do outro saqueará a cidade] graça alguma haverá a quem jura bem, nem ao justo nem ao bom, honrar-se-á muito mais ao malfeitor e ao homem desmedido; com justiça na mão, respeito não haverá, o covarde ao mais viril lesará com tortas palavras falando e sobre elas jurará.
A todos os homens miseráveis a inveja acompanhará, ela malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar. Então ao Olimpo, da terra de amplos caminhos, com os belos corpos envoltos em alvos véus, à tribo dos imortais irão, abandonando os homens, Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar aos homens mortais. Contra o mal forca não haverá!


Última edição por Richard Wizard em Ter Jul 21, 2015 8:02 am, editado 1 vez(es)
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COMENTÁRIOS

Mensagem  Richard Wizard em Ter Set 18, 2012 11:51 pm

A relação entre Hesíodo e Daniel


Ao longo deste trabalho, ficaram evidentes, explícita ou implicitamente, os pontos de contato entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor. Aproximação entre eles se dá, primeiramente, em termos das fontes de que se serviram. Muito anteriores a Hesíodo, elas brotaram na Antiga Mesopotâmia, berço da civilização humana. Os motivos e as características literárias, como vimos, estão presentes nesses paralelos orientais mais antigos de contato entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor. As tradições orientais teriam chegado à Jônia antiga vindas diretamente com as tradições indo-européias ou através do contato com o Oriente Próximo na Era Micênica. O tema da “justiça”, tratado nas obras de sabedoria orientais, foi retomado por Hesíodo para reflexão e exortação a partir de uma situação existencial do próprio poeta, conforme vimos. Para o caso do mito das cinco raças, então, a evidência de que sua fonte original tenha sido o Oriente é maior ainda. Sua concepção de história não pertence
à tradição grega; ele adapta um esquema que continha uma concepção mais antiga. A idéia de que a Era de Ouro, na qual situa Zeus, é o ponto de partida para um declínio crescente até chegar à sua época, a da Raça de Ferro, vai de encontro ao mito da sucessão presente em sua Teogonia. Com isso, podemos asseverar que alguns mitos, como o das raças, chegaram a Hesíodo através de outros canais, além da tradição épico-jônica e da Teogonia.

Outro dado que corrobora para isso é o fato de os heróis gregos quebrarem a seqüência lógica, a despeito da análise de Jean-Pierre Vernant, a qual, como vimos, tem suas limitações. Os heróis quebram a seqüência por serem mais justos que a raça anterior, bem como pelo seu destino post mortem(quebra a diminuição progressiva das vidas gloriosas depois da morte). É bastante provável, por isso, que os heróis foram inseridos em um mito original sobre quatro raças metálicas, o que, na concepção de uma filosofia da história, pode ter sido feito até mesmo por um predecessor de Hesíodo. O fato é que Hesíodo adaptou esse mito com o intuito de servir ao seu propósito:
a exortação contra a injustiça. Para tanto, acomodou muitos personagens da Teogonia, como a nova concepção acerca da Éris. Ele recorre ainda às tradições dos ciclos épicos, o de Tebas e o de Tróia, na inserção da Raça dos Heróis no
esquema.

Martin West, como vimos, acredita que esse e outros mitos se originaram na Mesopotâmia, e de lá se espalharam entre os persas, hindus, gregos, judeus e romanos, não necessariamente nessa ordem. Hesíodo teria sido a fonte única para os outros gregos e romanos, e talvez para os judeus. A definição da rota seguida pelos mitos e pelo esquema da sucessão é impossível de ser traçada com precisão. O certo é que todas as manifestações (inclusive em Daniel 2) têm uma fonte comum: o Oriente Antigo.

Para o caso de Hesíodo, além da proposta de duas possibilidades postulada por Albin Lesky, West postula três possibilidades: (a) A tradição tomou forma na época micênica, quando os contatos com as culturas orientais eram relativamente grandes, e foi preservada pelos jônicos. Ou (b) ela tomou forma entre os jônicos em época relativamente tardia, digo, no oitavo século, sobre a influência oriental. Ou (c) a tradição jônica era uma tradição puramente
grega, e os elementos orientais alcançaram a Beócia por uma rota distinta. Segundo ele, a presença de material oriental também em Homero favorece as alternativas (a) e (b).

No caso de Daniel, o antigo esquema de fases sucessivas também está presente, com uma filosofia da história, combinado, como vimos, com o esquema dos quatro reinos seguidos por um quinto que não tem fim (a filosofia da história está presente também no capítulo 7). O redator, a exemplo de Hesíodo, também o adaptou com fins específicos. É provável que um dos seus objetivos era a propaganda política contra o império dominante, prática comum no período helenístico. O fato é que, por estar em situação de conflito (ou, no caso dos relatos da corte, de exílio), seu objetivo mais evidente foi a exortação e encorajamento à fidelidade ao Deus de Israel. A exemplo de Hesíodo, também no caso de Daniel há três hipóteses, como vimos, para explicar a chegada do esquema ao redator macabeu: o contato se deu durante o cativeiro, quando, por intermédio dos babilônicos, os judeus tiveram acesso à cosmogonia antiga, ao zoroastrismo e a mitos e motivos orientais de uma forma geral; o contato teria se dado já na época do Império Persa, receptor da cultura e das tradições caldéias; ou o contato se deu já na época helenística, quando,
conforme vimos, o esquema da sucessão é largamente usado entre os romanos.

Nesta última época, a profusão da cultura helenista através das conquistas de Alexandre levou o mundo a uma unidade cultural jamais vista. É aqui, com maior possibilidade, que a influência de Hesíodo pode ter se dado. Como asseveramos acima, ele foi a fonte para outros gregos e para os romanos, como, por exemplo, Ovídio nas Metamorfoses. Tendo em vista que, conforme já assinalamos, o relato do sonho da estátua compósita é o de datação mais tardia dentre os relatos da corte, é bastante plausível que o redator macabeu tenha tido acesso ao esquema das fases sucessivas da história através de Hesíodo e ao esquema dos quatro reinos seguidos de um quinto sem fim através dos romanos. Este último esquema também, como vimos, é muito anterior a Daniel, e não surgiu em solo israelita. No entanto, a exemplo de Hesíodo, o redator de Daniel também buscou em suas tradições motivos para a adaptação dos dois esquemas que utiliza: o reino messiânico, no motivo simbolizado pela “pedra”, e a idéia de que todos os reinos estão, em última instância, à mercê do Deus de Israel (muito comum, por exemplo, no Dêutero-Isaías). Assim, tanto Hesíodo quanto Daniel 2 possuem uma filosofia da história, como acontece no hinduísmo e no zoroastrismo. Além disso, tanto Hesíodo quanto Daniel deixam transparecer também o primitivo e comum mito do paraíso primevo: em Hesíodo na Raça de Ouro, onde os homens viviam regalados por Zeus, e em Daniel na época de Nabucodonosor, a
“cabeça de ouro” da estátua compósita, o qual dominou “até sobre as aves do céu e os animais do campo”, domínio esse que, justamente por sua grandeza e superioridade, fez com que reinasse a paz.

Em relação a essa tradição comum, porém, Daniel se afasta de Hesíodo: ao passo que o redator macabeu espera o retorno ao estado primevo com a vinda futura e escatológica do reino messiânico, Hesíodo, pelo menos no mito das cinco raças, não possui uma escatologia apocalíptica otimista: ele não revela esperanças de mudança para a humanidade, a despeito da tentativa de Vernant em provar o contrário: “a decadência ameaça ser total, mas esse fim apocalíptico que se anun- cia no horizonte da raça de ferro apenas ocorrerá se os homens não derem ouvidos à solene advertência do poeta”. Hesíodo não usa o aspecto condicional nos verbos em que prevê o futuro aterrador da Raça de Ferro; ele prevê inclusive, como vimos, a presença de Zelo e a retirada de Aidós e Némesis dentre os homens, estas
duas as últimas divindades que garantiam a vida comunitária da humanidade, asseverando no último verso do mito que “contra o mal não haverá defesa”.

Somente em outros pontos diversos dos Erga Hesíodo exorta positivamente, em caráter sapiencial, à maneira da poesia didática. Também não se pode provar pelo texto, como vimos, que o tempo em Hesíodo é cíclico. Mesmo se afastando neste ponto, tanto Hesíodo quanto o redator de Daniel vivem em situações que desejariam, de certa forma, não viver; ambos almejam, no fundo, uma existência num mundo melhor: o primeiro clama por justiça, e o segundo pela concretização de um reino há muito prometido pelo profetismo e não cumprido, reino esse que, certamente, seria mais justo e melhor, pois reflete o reinado messiânico. A situação particular de Hesíodo acaba levando-o a refletir sobre a Díke e a Hýbris de forma muito mais ampla que seu problema familiar; o mesmo ocorre com o redator de Daniel: como vimos, seu marco social é muito mais amplo que os judeus em Jerusalém sob a perseguição de Antíoco IV, estendendo-se aos judeus de toda a diáspora oriental. Para validar a mensagem, tanto Hesíodo quanto o redator macabeu apelam para o aspecto mítico-lendário: o primeiro se diz inspirado pelas Musas da Piéria para transmitir toda a verdade (e*thvtuma) que vem, em última instância, do próprio Zeus, autor da justiça, pois as Musas são porta-vozes deste; o segundo apela, como vimos, para uma figura lendária do passado, reconhecidamente notória pela sua justiça e retidão, podendo ser portadora, então, de revelações secretas vindas de YHWH, bem ao estilo apocalíptico. A partir das fontes comuns, é nesse gênero que se dão as semelhanças literárias entre Hesíodo e Daniel, apesar dos idiomas distintos. Podemos afirmar, inclusive, que ambos os relatos pertencem ao mesmo gênero: o apocalíptico.

Já vimos que o sonho da estátua compósita é um apocalipse histórico (quando é feita uma inspeção da história que conduz a uma crise escatológica, sem referência a viagem a outro mundo), seu meio de revelação é a visão de um sonho simbólico e o conteúdo dessa revelação é a profecia ex-eventu do tipo periodização da história. Vimos também que a apocalíptica quanto mentalidade abarca uma série de formas de expressão (chamadas por alguns autores de “subgêneros”), por vezes transformando gêneros tradicionais em formas híbridas. Podemos incluir, entre essas formas de expressão, o mito. Muitos níveis literários diferentes podem ser discernidos a partir de um
texto. J. J. Collins assevera que: Uma forma literária particular pode ser considerada como um gênero independente
ou como um subtipo de uma categoria mais ampla. O nível de abstração apropriado ao gênero é determinado em parte pelo uso comum e em parte pelo grau de coerência que percebemos dentro de um grupo de textos. Em um certo nível,
as obras que são chamadas de apocalipses pertencem à categoria mito, em qualquer dos vários sentidos, como uma história sobre seres sobrenaturais, ou como uma expressão simbólica de intuições básicas, ou como uma narrativa com
propósito de percepções questionadoras. Não obstante, o mito é uma categoria muito mais ampla do que o apocalipse; assim, o gênero desses textos pode ser definido mais proveitosamente em um nível menor de abstração.
Assim sendo, o gênero literário deve levar em conta também a forma do texto (estrutura, elementos formais), além de seu conteúdo. Só assim o nível de abstração na classificação será menor. Em todo caso, ainda assim diferentes níveis
podem ser abstraídos de um texto individual.

Já o mito das cinco raças, então, pode ser classificado como um mito existencial clássico, mas pode ser classificado também, a exemplo do sonho da estátua compósita, como um apocalipse histórico, tendo como meio de revelação o mito; seu conteúdo é a periodização da história (apesar de não ter a profecia ex-eventu presente na definição de Collins) e, no caso da última raça, as predições escatológicas em forma de presságios e agouros. Observamos neste trabalho que as raízes da apocalíptica remontam a período muito anterior ao livro de Daniel, em solo judaico; o fenômeno apocalíptico, numa perspectiva da religião comparada, insere a apocalíptica judaica num contexto muito mais amplo, como o da apocalíptica iraniana, entre outros. As influências estrangeiras na apocalíptica judaica (babilônicas, persas), tanto em termos de moldura quanto em termos de idéias e motivos, assinalam que o gênero era já conhecido no Oriente Antigo, sendo ponto pacífico que Hesíodo sofreu tais influências. Mesmo que a origem da apocalíptica tenha se dado na sabedoria, como postula Von Rad, esta também era praticada, como vimos, no Oriente bem antes de Hesíodo e dos sábios de Israel. De fato, em relação a este último ponto de contato, não deixa de haver
também, tanto em Hesíodo quanto em Daniel 2, o aspecto sapiencial: Hesíodo dirige sua mensagem, no todo do poema, com o intuito de exortar e admoestar ao irmão e aos juízes (mesmo atestando sua descrença com a escatologia pessimista em relação à Raça de Ferro); Daniel 2 remonta ao sábio José, do Gênesis, sendo o próprio personagem figura lendária da sabedoria antiga. De qualquer forma, como assinalamos anteriormente, a apocalíptica possui o elemento sapiencial. Várias características apocalípticas aproximam Daniel 2 do mito de Hesíodo.
Ambos possuem o dualismo: Hesíodo contrapõe Díke e Hýbris, especialmente na última raça, quando elas estarão lado a lado (“bem (e) desgraças estarão misturados”); já Daniel 2 contrapõe o último reino, o “reino sem fim” (expressando
seu caráter escatológico), aos reinos anteriores, terrestres, que aquele destruirá. Ambos possuem também uma filosofia da história própria, com determinismo apocalíptico imposto a ela.

Tanto o mito de Hesíodo quanto Daniel 2 possuem a escatologia apocalíptica, com sua ênfase mais na consumação da história do que no curso dela. No poeta grego isso se dá especialmente na Raça de Ferro, época em que Hesíodo se
coloca como contemporâneo. Esse final, como sempre, inclui catástrofes e desmandos, o reinado da pura Hýbris em Hesíodo, e a destruição cataclísmica da estátua (que simboliza os reinos terrestres) em Daniel 2. Ambos se mostram pessimistas em relação à intervenção humana para mudança do curso da história e no estado de coisas presente. A diferença é que, como assinalamos acima, Daniel 2 é otimista em relação ao reino que será implantado escatologicamente; provavelmente isso se deve pela adaptação do outro esquema, o dos quatro reinos sucessivos
seguidos por um quinto que não tem fim, o qual foi utilizado por ser propício ao motivo do reino messiânico que os judeus tinham em mente, cuja esperança bem servia aos propósitos do redator macabeu.
Em relação ao mito de Hesíodo, sabe-se que o tema do colapso nos laços familiares e nos costumes que aparece na descrição da Raça de Ferro é característico das profecias orientais acerca do fim dos tempos. Essa última
raça é marcada por muitas aflições também no Bahman Yasht persa e no Mahabárata indiano. Hesíodo a descreve como pertencente a uma época de ingratidão, desprezo pelos juramentos e pela justiça, opressão dos maus sobre os bons, com a retirada, por fim, de Aidós e Némesis de entre os homens. A imagem das crianças nascendo já com cabelos brancos (geinovmenoi poliokrovtaϕoi) aponta para o fato de que a morte já estarábem próxima do nascimento;
esta raça é a que tem a duração de vida mais curta.

Uma outra diferença apocalíptica entre Hesíodo e Daniel 2 é que a profeciaex-eventu, presente neste, não se dá no caso de Hesíodo.Enfim, os pontos de contato são em muito maior quantidade do que as diferenças,o que, certamente, não deve ser fruto do mero acaso. Eles se dão, como vimos, em termos de fontes, estrutura, marco social e gênero literário.
A Profecia de Neferti (cerca de 2000 a.C.) relata: “Eu revelo a você o filho como um adversário, o irmão como um inimigo, e um homem matando o seu próprio pai” (cf. PRITCHARD, J. B. (Ed.). ANET, p. 445). Da mesma forma, várias profecias do Antigo e do Novo Testamento, bem como do período interbíblico, como Is 3,5; Mq 7,2-6; Mc 13,12 e 4 Esd 6,24 (neste último, cf. a expressão geinvomenoi poliokrovtaϕoi televqwsin, “nascendo já em sua plenitude, com fontes
encanecidas”). Tal assertiva lembra a profecia de Cristo em Mt 24,22: “E se aqueles dias não fossem abreviados,
nenhuma vida se salvaria. Mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados''.
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